FALEMOS
DE GREVES
Uma greve por mais justa que seja não pode de forma nenhuma colocar
em causa a estabilidade social de toda uma população, nem tão pouco afectar a
economia de um país e muito menos um país poderá ficar refém dos interesses
pessoais de um qualquer individuo por mais inteligente que seja. Vem isto a
propósito da greve dos motoristas de matérias perigosas que se prolonga já por
sete dias. Não há muito tempo que paralisaram pela primeira vez o país reivindicando
os seus legítimos direitos e ao que parece obtiveram resultados dessa Accão. Não
satisfeitos com as melhorias obtidas vieram agora passado pouquíssimo tempo ao
campo de batalha com nova greve, em pleno Agosto, tentando paralisar de novo um
país cuja seu principal motor económico é o turismo. Ao que parece exigem agora
nova discussão salarial e evocam fuga aos impostos por parte do patronato, uma
vez que o ordenado base é praticamente o mínimo e o restante é-lhes pago em
subsídios ou ajudas de custo.
Por ser uma discussão privada entre patrões e empregados a
opinião pública nunca tomou conhecimento do então discutido e aprovado, nem
isso era do interesse público, diga-se. No entanto tal negociação motivou novo
conflito, sinal de que nem tudo estava a ser cumprido ou pelo menos existiriam
situações menos claras que necessitariam nova discussão.
Não discuto o processo negocial porque não tenho condição
técnica para o fazer ou avaliar, mas na qualidade de cidadão, sinto-me no
direito de querer saber como decorrem as negociações dado que toda esta greve
prejudicou toda a população portuguesa da qual faço parte.
É assim que com fundamento apenas na comunicação social
percebo que o radicalismo de ambas as partes provoca o prolongar de uma
situação gravíssima que não se sabe como vai acabar. Cada uma das partes
defende os seus interesses e a razão desconhecemo-la por completo, mas acredito
que esteja algures entre o que cada um defende. Se cada uma das partes não
estiver disposta a ceder jamais encontrarão o acordo que conduza não só à
estabilidade do sector, mas sobretudo à paz social.
Interrogo-me, no entanto, com muitas dúvidas, que são
públicas referentes à discussão, desde logo porque entendo que quando os
contratos laborais entre patrões e empregados foram assinados, as condições
estavam explícitas e foram assinados por acordo entre as partes. Compreendo que
durante vinte anos (como defendem os trabalhadores) os referidos contratos não
tenham sido revistos, mas também verifico que durante todos esses anos nenhum
trabalhador se manifestou talvez porque a forma como era pago lhe deu jeito a
ele e claro ao patrão. Agora que as reformas de muitos se aproximam é que
percebem que durante todos esses anos andaram erradamente a receber com um
salário baixo que para efeitos de reforma ou baixa os prejudica. Pois é, não é caso
virgem e não só neste sector, mas também em muitos outros. O sistema instituído
interessava às partes e foi sendo prática corrente. Uma outra dúvida que tenho
prende-se com o ataque cerrado vindo de muitos quadrantes políticos visando
apenas a critica ao governo notoriamente com fins políticos que escondem a
vontade claramente expressa de desgaste governamental. O poder é tentador, mas
não acho que nestes casos privados o governo tenha de se intrometer a menos que
a situação se extreme e ponha em causa o bem público e a paz social do país. É o
que está a acontecer e na minha opinião muito bem. O governo actuou com sentido
de estado e a população foi salvaguardada e pouco sentiu com esta greve.
Que as partes se
entendam em novas negociações, com a mediação do governo, de uma vez por todas
porque as grandes empresas que actuam neste sector têm obrigação de remunerar
bem os seus empregados dada a responsabilidade e perigosidade da actividade. Por
sua vez que os motoristas percebam que a sua liberdade termina precisamente
onde começa a dos outros e não se deixem conduzir por sindicalistas cujos
interesses se misturam entre os interesses dos trabalhadores e a ambição
política.
AI.